Governo quer privatizar operações e acabar com Caixa Econômica Federal, aos poucos
Para Maria Rita Serrano, representante dos funcionários do banco no Conselho de Administração, ideia é usar estratégia 'sem necessariamente abrir o capital ou vender em leilão como nos anos 90'
“Se não tiver a Caixa para investir em habitação e infraestrutura, o Bradesco e o Itaú é que não vão fazer”, diz conselheira
São Paulo – Como é comprometido com o capital, o governo de Michel
Temer tem o óbvio objetivo de diminuir o papel de todas as empresas públicas na
economia. No caso dos bancos, e particularmente da Caixa Econômica Federal, as
perspectivas não são diferentes. “Se é Estado mínimo, se o pressuposto é que
não precisa de empresa pública, o espaço dela é deixado para o capital privado.
O que estamos vendo é o patrimônio público sendo entregue. Nosso papel é chamar
a sociedade para lutar, porque se não tiver a Caixa para investir em habitação
e infraestrutura, como o Banco do Brasil no crédito agrícola, não é o Bradesco
e o Itaú que vão fazer.” A avaliação é de Maria Rita Serrano, eleita
representante dos funcionários da Caixa no Conselho de Administração. Ela se
elegeu com 14.283 votos, em segundo turno, na quinta-feira (26). A chapa
concorrente de Nilson Moura, número 25, teve 12.739 votos.
Segundo ela, a estratégia do governo para a Caixa é privatizar as
operações importantes. No momento, fala-se na loteria instantânea e na
seguradora. Segundo ela, há uma discussão sobre privatizar a gestão dos
cartões, e – “outra ideia fomentada pelos bancos privados” –, de privatizar a
gestão do FGTS, além da orientação geral do governo de vendas de ativos de
todas as empresas estatais, incluindo os bancos.
“Se privatiza as operações e diminui o quadro de empregados, você
está acabando com a empresa sem necessariamente abrir o capital ou vender num
leilão da Bolsa como era feito na década de 1990. Você vai acabando com ela aos
poucos”, diz Maria Rita.
De acordo com a nova conselheira, a estratégia do governo pode ser
interpretada como uma saída que não obteve no Congresso Nacional. “Nós
derrubamos o PLS 555, que previa abrir o capital das empresas, no ano passado,
e a partir daí o modelo adotado foi de privatizar as empresas públicas aos
poucos, a partir de suas operações. Isso já está em andamento”, diz a
conselheira.
Hoje, a Caixa Econômica Federal tem 95 mil funcionários, mais de 4
mil pontos de atendimento (3.391 agências e 814 postos) e aproximadamente 80
milhões de clientes.
Assim como para outras empresas públicas, o governo Temer deve
anunciar um programa de demissão voluntária para os funcionários da Caixa em
breve. Maria Rita afirma não haver problema com o PDV em si, já que é
voluntário. “O problema é que se pretende que saiam trabalhadores sem haver
contratação, sem haver contrapartida. É mais um sintoma de que a qualidade do
atendimento vai piorar, os trabalhadores vão trabalhar mais, vão cair as
condições de trabalho.”
O Conselho de Administração da Caixa tem sete membros. Quatro são
indicados pelo Ministério da Fazenda e um pelo Planejamento. O sexto é o
presidente da empresa e o sétimo, o representante dos trabalhadores.
Maria Rita Serrano diz que a representação de um trabalhador no
conselho é importante por quatro razões: “é uma forma de democratizar a gestão,
em especial a gestão pública, para garantir espaço daqueles que constroem a
empresa; segundo, é um espaço de fiscalização dos recursos públicos, porque
enquanto os outros são indicados, no nosso caso é eleito e tem legitimidade do
voto; terceiro, é um espaço para o olhar dos trabalhadores e suas demandas
nesse fórum que planeja as ações da empresa; e, quarto, como nosso compromisso
é a defesa de um banco público focado no desenvolvimento do país, é fazer o
debate para que a Caixa tenha essa atuação, mantendo a empresa íntegra, pública
e sustentável”.
Maria Rita é funcionária da Caixa desde 1989, graduada em História
e Estudos Socais e mestre em Administração.
Por Eduardo Maretti, da RBA Publicado 03/02/2017
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