O grande assunto de ontem foi a divulgação dos gastos em cartão corporativo pelos 4 últimos Presidentes (Bolsonaro, Temer, Dilma e Lula), iniciativa tomada pela agência Fiquem Sabendo (Fiquem Sabendo (@_fiquemsabendo) / Twitter
). Achei a cobertura da imprensa muito repetitiva, rasa e genérica, pois parecia que poucos haviam se dado ao trabalho de pôr os dados no devido contexto e à luz de variáveis e condicionantes importantes. Limitaram-se a pegar valores totais e divulgar o mais rápido possível, para não ficarem para trás dos concorrentes.
Então, achei melhor ir diretamente na fonte. Resolvi analisar por conta própria a tabela de gastos nos cartões corporativos, para encontrar e prover mais detalhes do que a imprensa vem revelando até agora.
Atentem que os dados estão sem correção monetária, pois é dificílimo fazê-lo com precisão e honestidade se as despesas ocorreram todos os dias ao longo de anos, com quantias muito variáveis de um dia para o outro. Podemos ter uma noção geral, mediana, dos valores corrigidos para os valores atuais, mas é difícil, sem um software especializado para isso, fazer a correção exata, então melhor nem se atrever.
Algumas coisas ficam logo de cara patentes:
- Os gastos em cartão corporativo realmente não parecem se referir exatamente às mesmas situações:
- enquanto o cartão corporativo relativo ao governo Lula, de 2003 a 2010, foi usado por 57 CPFs diferentes, o tocante ao governo Bolsonaro, de 2019 a 2022, foi usado por "somente" 23 CPFs distintos, 60% menos;
- enquanto o cartão corporativo relativo ao governo Lula foi usado para 65.870 despesas distintas, o referente ao governo Bolsonaro foi usado para "apenas" 13.339 despesas diferentes, 80% menos.
- Parece-me que essas duas variáveis tão diferentes corroboram a alegação que tenho visto muito, nas redes sociais e alguns blogues, de que a comparação se torna um tanto injusta e enganosa pelo fato de que, nos governos Lula e 1º mandato de Dilma, o cartão corporativo em questão não era subdivido como passou a ser posteriormente, de modo que os gastos que estão inclusos na tabela, no que tange ao período aproximadamente entre 2003 e 2014, dizem respeito não somente à Presidência, mas a outros órgãos do Governo Federal também. Já os gastos de Temer e Bolsonaro parecem se referir mesmo e especificamente à Presidência (incluindo, obviamente, a equipe que a serve imediatamente).
- Há ainda, é claro, o fato óbvio de que a Era Lula durou 8 anos, enquanto a Era Bolsonaro durou 4, o que é agravado pelo fato de que os dados divulgados só vão até 19/12. Isto é, todos os gastos entre 20/12 e 31/12 não estão contabilizados (como o cartão corporativo de Bolsonaro gastou 4,997 milhões de reais entre 02/01/2022 e 19/12/2022, presume-se que, mantendo a média, foram gastos mais 157 mil reais).
- Para complicar, os dados não incluem despesas com viagens internacionais, então não temos uma ciência completa do que cada um gastou lá fora.
Com base em todas essas variáveis que DEVEM ser levadas em conta conjuntamente, podemos comparar melhor a 1ª Era Lula (2003–2010) com a Era Bolsonaro (2019–2022):
- MÉDIA DE GASTOS (EM RS$) POR CADA NOTA DE DESPESA:
A média da Era Bolsonaro (R$ 2.070,74) é 210% acima da média da Era Lula (R$ 667,81), o que sem dúvidas supera o esperado pela correção monetária, ajustando-se cada período pela inflação. Isso significa que, na média, os bens e serviços que foram comprados por meio do cartão corporativo foram mais caros no governo Bolsonaro do que nos governos de Lula.
- MÉDIA DE GASTOS (EM RS$) POR CADA CPF QUE FEZ USO DO CARTÃO:
A média da Era Bolsonaro (R$ 1.200.941,52) é 56% acima da média da Era Lula (R$ 771.903,69), porém há que se considerar que esta, na tabela, corresponde a mais que o dobro do período da Era Bolsonaro (2.920 dias contra 1.448 dias). Assim, é recomendável, para comparação mais realista e adequada, dividir pela metade os R$ 771.903,69. Nesse caso, com uma média reduzida a R$ 385.951,84 por mandato lulista, verifica-se que a média por CPF utilizador do cartão corporativo foi 211% maior na Era Bolsonaro do que na Era Lula, novamente bem acima do esperado somente pela corrosão do real pela inflação.
- MÉDIA DE GASTOS (EM R$) POR DIA DE GOVERNO: A média diária do governo Bolsonaro (R$ 19.075,73 por dia) é 26,6% superior à média diária dos governos Lula (R$ 15.067,98).
- No entanto, há que se considerar que, a cada dia, o cartão corporativo parecia servir a mais órgãos e serviços que no governo Bolsonaro, daí tantas notas diferentes de despesa e CPFs a mais fazendo uso de um mesmo cartão.
- Do mesmo modo, a cada dia eram mais agentes públicos e órgãos que dependiam do uso do mesmo cartão corporativo da Presidência na Era Lula (57 CPFs distintos que compraram nele) em relação aos 23 CPFs que usaram o cartão corporativo presidencial na Era Bolsonaro. Portanto, a média de gastos diária dividida pelo número de pessoas físicas (CPF) que faziam compras no cartão se torna bem mais elevada na Era Bolsonaro: R$ . Cada indivíduo usuário do cartão gastou bem mais sob Bolsonaro do que sob Lula.
Para facilitar a análise de vocês e contextualizar melhor os dados acima, vejam esta tabela exemplificativa dos percentuais de correção monetária devidos para determinados intervalos até o último IPCA disponível (dez/22):
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