Chefe da SECOM teve 67 encontros com clientes e ex-clientes de sua empresa
https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/01/chefe-da-secom-de-bolsonaro-teve-67-encontros-com-clientes-e-ex-clientes-de-sua-empresa.shtml - 16.jan.2020 às 14h30
A agenda pública e os relatos oficiais de viagens realizadas pelo
chefe da Secom (Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República),
Fabio Wajngarten, mostram que, desde que ele assumiu o cargo, teve pelo menos
67 encontros com representantes de clientes e ex-clientes de sua empresa FW
Comunicação.
Segundo os registros, 20 viagens foram custeadas com dinheiro
público para parte dessas reuniões. A Folha mostrou nesta quarta-feira (15) que
o chefe da Secom recebe, por meio da FW, da qual é sócio, dinheiro de emissoras
de TV e de agências de publicidade contratadas pela própria secretaria,
ministérios e estatais do governo Jair Bolsonaro.
A Secom é a responsável pela distribuição da verba de propaganda
do Planalto e também por ditar as regras para as contas dos demais órgãos
federais. No ano passado, gastou R$ 197 milhões em campanhas.
O secretário tem 95% das cotas da FW, que tem contratos com ao
menos cinco empresas que recebem do governo, entre elas a Band e a Record,
cujas participações na verba publicitária da Secom vêm crescendo.
A legislação vigente proíbe integrantes da cúpula do governo de
manter negócios com pessoas físicas ou jurídicas que possam ser afetadas por
suas decisões.
Em entrevista à Folha, Fabio Liberman, nomeado em abril para
administrar a FW, disse que a firma teve negócios com SBT e Rede TV!, mas os
contratos se encerraram.
Nomes ligados às emissoras e afiliadas de TV Record, SBT, Band e
Rede TV! constam em 62 compromissos listados em sua agenda oficial e em suas
viagens para fora de Brasília, custeadas com dinheiro público.
Os outros 5 foram com integrantes da agência Artplan, agência
contratada pelo governo e que, ao mesmo tempo, paga pelos serviços da empresa
do chefe da Secom.
A TV Globo, foco de críticas do secretário e do presidente Jair
Bolsonaro, aparece em apenas três encontros, os últimos realizados em julho do
ano passado, ocasião em que há registro de uma visita institucional de
Wajngarten à sede da TV, no Jardim Botânico (RJ), para almoço com o
vice-presidente do Conselho de Administração do Grupo Globo, João Roberto
Marinho.
O secretário também teve uma agenda com representantes do Grupo
RBS, que tem 12 emissoras locais afiliadas à Globo.
A agenda pública do chefe da Secom registra a realização de mais
de 450 compromissos desde que ele assumiu o cargo, em abril do ano passado.
Na lista de clientes ou ex-clientes estão as TVs Record e SBT, com
21 e 19 encontros, respectivamente.
Seus donos, Edir Macedo (Record) e Silvio Santos (SBT), têm
manifestado apoio a Bolsonaro.
Os dois, por exemplo, subiram no palanque do desfile de Sete de
Setembro, no ano passado, e se sentaram na primeira fila junto com o presidente
da República.
Apresentadores dessas emissoras têm estabelecido uma relação
cordial com Bolsonaro, como é o caso de Ratinho (SBT).
Entre os executivos dessas emissoras recebidos pelo chefe da Secom
estão Guilherme Stoliar, presidente do Grupo Silvio Santos, e Luiz Claudio
Costa, presidente da Record TV.
Representantes de Band e Rede TV! tiveram 11 encontros, cada um,
com o chefe da Secom desde abril, entre eles Johnny Saad, presidente do Grupo
Bandeirantes, e Marcelo de Carvalho, vice-presidente e cofundador da RedeTV!.
Record e Band possuem contrato em vigor com a empresa de
Wajngarten.
Wajngarten se encontrou com dirigentes ou representantes de
emissoras e empresas em agendas oficiais no Planalto e durante viagens pagas
pelo governo.
O governo gastou R$ 147 mil em 44 viagens do chefe da Secom entre
8 de abril de 2019 e 15 de janeiro de 2020. Em 20 delas, ele se encontrou com
executivos e outros funcionários de emissoras que tiveram ou têm contrato com a
FW Comunicação.
Wajngarten também se encontrou com jornalistas da Folha em 3
oportunidades durante viagens pagas pelo Executivo. A última vez foi em junho,
de acordo com as informações do Portal da Transparência do governo federal.
Prédio onde está localizada a FW Comunicação e Markentig, de Fabio
Wajngarten, no Jardim Paulista, zona oeste de São Paulo
A Folha procurou a Secom e as emissoras de TV, além da Artplan, na
noite de quarta-feira (15).
"A Bandeirantes tem contrato desde 17 de dezembro de 2004. Os
recursos de publicidade do governo federal destinados à Band em 2019 foram
menores do que os recursos destinados em 2018", diz a emissora.
A RedeTV!, também em nota, afirmou que não mantém relações
comerciais com empresas particulares do secretário. A emissora diz ainda que os
contratos com a FW foram finalizados "anos antes" de Wajngarten
ocupar cargo público.
Sobre as agendas com o chefe da Secom, a emissora afirmou que
"todos os encontros versaram sobre temas importantes para a comunicação do
governo federal, no escopo das atividades do secretário”.
O SBT informou que teve contrato com a FW até o primeiro semestre
de 2019. O vínculo, segundo a assessoria da emissora, foi encerrado "por
motivo de contenção de despesas".
A emissora controlada por Silvio Santos não se manifestou sobre os
encontros entre Wajngarten e executivos e funcionários da empresa.
O diretor de Comunicação na Rede Record, Celso Teixeira, afirmou
que os encontros entre representantes da empresa e o chefe da Secom foram
institucionais e não trataram de assuntos privados ligados à FW.
Wajngarten e a Artplan não responderam até a publicação desta
reportagem.
Anteriormente, o chefe da Secom afirmou não haver "nenhum
conflito" de interesses em manter negócios com empresas que a secretaria e
outros órgãos do governo Bolsonaro contratam.
“Todos os contratos existem há muitos anos e muito antes de sua
ligação com o poder público”, afirmou, por meio de nota da Secom.
Chefe da Secom recebe dinheiro de emissoras Band e Record, contratadas pelo governo Bolsonaro
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