Produtora de Regina Duarte deve R$ 319 mil por irregularidades com Lei Rouanet
https://oglobo.globo.com/cultura/produtora-de-regina-duarte-deve-319-mil-por-irregularidades-com-lei-rouanet-24208817 - Jan Niklas - 24/01/2020
RIO — Um projeto da produtora de
Regina Duarte que captou R$ 321 mil teve sua prestação de contas rejeitada na Lei
Rouanet pelo então Ministério da Cultura, em 2018. Segundo uma portaria
publicada no Diário Oficial em março de 2018, a empresa da atriz deve restituir
R$ 319,6 mil aos cofres públicos.
Pendências com Rouanet não são,
entretanto, entraves jurídicos para nomeação de Regina Duarte na Secretaria
Especial de Cultura, dizem especialistas. Mas pode haver conflito de
interesses, já que a função de chefe pode implicar em selecionar pessoas que
vão julgar o seu processo
A informação sobre a irregularidade
foi antecipada pela revista "Veja" e confirmada pelo GLOBO. Regina
terá que restituir o valor ao Fundo Nacional da Cultura (FNC), devido as
irregularidades da peça "Coração bazar", projeto executado pela
produtora A Vida É Sonho Produções Artísticas, da qual ela é
sócia-administradora. A última atualização do processo no Salic foi em junho de
2018. De acordo com a "Veja", a conta ainda não foi cobrada porque
Regina apresentou um recurso.
Apesar de se mostrar crítica à
utilização da Rouanet por artistas famosos, Regina, por meio de sua empresa, já
captou mais de R$ 1,4 milhão em três espetáculos desde 1999. Os projetos
constam no Sistema de Apoio às Leis de incentivo à Cultura (Salic), que permite
acompanhar as propostas culturais inscritas no mecanismo.
Regina Duarte e Bolsonaro em 2018,
durante a campanha para a presidência, quando a atriz declarou seu apoio ao
então candidato do PSL. Regina prometeu responder o convite para a Secretaria
até este sábado
Conhecida pelas suas posições
conservadoras, a atriz Regina Duarte foi convidada pelo governo Bolsonaro para
assumir a Secretaria Especial da Cultura no lugar de Roberto Alvim.
Na imagem, de dezembro de 2016, Regina
participa de manifestação em apoio ao juiz Sergio Moro, na Avenida Paulista, em
São Paulo Foto: Rogério Gomes / Agência O Globo
Conhecida pelas suas posições
conservadoras, a atriz Regina Duarte foi convidada pelo governo Bolsonaro para
assumir a Secretaria Especial da Cultura no lugar de Roberto Alvim. Na imagem,
de dezembro de 2016, Regina participa de manifestação em apoio ao juiz Sergio
Moro, na Avenida Paulista, em São Paulo Foto: Rogério Gomes / Agência O Globo
Regina Duarte varre chão da Avenida
Paulista ao lado do então prefeito de São Paulo, João Doria, em janeiro de 2017
Regina Duarte, em entrevista a uma emissora de televisão portuguesa, disse, em 2016, que o Brasil passava por um processo delicado. 'Havia tanta esperança nesse governo (Dilma Rousseff), e ele frustrou um país, de uma forma muito agressiva, violenta. É triste', afirmou.
Em 2002, Regina Duarte afirmava, em um
vídeo gravado para o programa eleitoral do então candidato do PSDB, José Serra,
que tinha medo da vitória do ex-presidente Lula nas eleições daquele ano.
Em 1985, Regina Duarte gravou um
comercial em apoio à candidatura de Fernando Henrique Cardoso para a Prefeitura
de São Paulo. Ela pedia a união da esquerda para combater o conservador Jânio
Quadros e o terceiro colocado na disputa, o petista Eduardo Suplicy. “Votar em
Suplicy é ajudar o Jânio. Não vamos nos esquecer do que aconteceu na Alemanha
na década de 30. Os democratas se dividiram e o que aconteceu? Hitler subiu ao
poder com pouco mais de 30% dos votos!", dizia
Procurado pelo GLOBO, o filho da atriz
e um dos sócios da empresa, André Duarte, afirmou que a mãe vai "cumprir o
que a Justiça determinar". Porém, disse desconhecer a atual fase da ação
de reprovação de contas e a cobrança de restituição do valor captado.
— Uma das contrapartidas desse projeto
era a realização de quatro espetáculos beneficentes, sem cobrança de ingresso.
Nós realizamos até mais do que isso. Porém, na hora de prestar as contas, não
achamos os recibos e os comprovantes de que esses espetáculos tinham sido
feitos — explicou André Duarte.
A peça "Coração bazar" ficou
em cartaz em São Paulo em 2004, e depois passou por várias cidades, sendo
encenada também em Portugal. Em 2007, fez uma curta temporada no Canecão, no
Rio. No monólogo, a atriz se desdobra em sete personagens que representam as
mais diversas facetas do sexo feminino, com impressões sobre o cotidiano e
reflexões sobre a vida, e trechos de textos de autores como Carlos Drummond de
Andrade e Clarice Lispector.
A empresa de Regina usou a Lei Rouanet
em outros dois projetos. A peça "Honra", que captou R$ 800 mil, em
1999, teve a prestação de contas aprovada. Além de ser produtora do espetáculo,
Regina também atuou na encenação ao lado de Carolina Ferraz, Marcos Caruso e da
filha Gabriela Duarte.
Já a montagem da peça teatral
"Pedro e Vanda", de autoria de Jay Di Pietro, com tradução e adaptação
de Eduardo Lippincott, ainda está com sua prestação de contas em análise pela
Secretaria Especial da Cultura. A peça foi estrelada por Gabriela Duarte e
Marcelo Serrado.
Em uma entrevista dada ao
"Programa do Bial" em maio de 2019, Regina Duarte criticou o uso da
Lei Rouanet por artistas famosos. Ela ainda se mostrou alinhada a uma visão
liberal do papel do estado, ao defender uma menor atuação do governo na
cultura. Questionada pelo apresentador sobre os rumos da política cultural no
Brasil, ela sacou uma "cola" com anotações do que deveria falar sobre
o assunto.
— Com relação a Lei Rouanet,
transparência é indispensável no uso do dinheiro público. Acho que o governo
que usa o dinheiro da população deveria apoiar os que estão iniciando, a
cultura regional — disse consultando sua "cola". — O povo deseja e
precisa de um estado menor.
Na noite de quinta-feira, em sua live
semanal, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que tudo indica que Regina Duarte
aceitará o convite para comandar a Secretaria Especial de Cultura.
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