A manipulação da imprensa

 

Por que a Folha de São Paulo está tentando de qualquer maneira achar podres de qualquer um perto de Jair Bolsonaro? Eles fizeram isso nos últimos 10 anos com outros presidentes?

Sim, fizeram. E essa é uma das principais missões de um grande jornal.

Só que divulgar “podres”, como você diz, amplifica a exigência do jornalismo comprometido com a verdade, isento, neutro, objetivo. Em outras palavras, aumenta a responsabilidade dos jornalistas na prática da ética.

O problema é que essa prática, aparentemente, foi encostada como objeto obsoleto. Começo com exemplos facilmente encontráveis na web (digite, por exemplo: manipulação Folha de São Paulo), tal a fartura de material pernicioso.

Foto escolhida pelo UOL (do Grupo Folha) para dar a notícia de que Lula liderava a corrida presidencial. Essa mesma foto que transmitia sentimento ruim de agressividade foi amplamente utilizada para outras notícias com o Lula.

10/4/2016


Vertiginosa “subida” de Alckmin, claramente preferido pela Folha, de 11% para 9%!!!

15/4/2017



15/4/2017


Folha: 13/12/2015 – manchete principal.

O próprio subtítulo já demonstra o objetivo de manipulação.



“Adiamento” por “suspensão” – troca sob medida para inflamar a ira de antipetistas leitores de títulos.



Diferença do fotojornalismo para ilustrar a mesma caravana de Lula.



Foto de Lula para a Folha. Público apagado e ofensa visual. DEZ 2017



Esses são apenas fiapos da participação da Folha no que se aparenta a uma articulação midiática em prol do que podemos chamar de “Demonização do PT” e, em particular, do seu líder Lula. Um aprofundamento nos levaria a imensa massa editorial, impossível de ser tratada neste espaço, e que, certamente, abafaram as poucas vozes contrárias dentro do jornal, como a da chargista Laerte, a de articulistas como Jânio de Freitas e até a que sai da louvável existência de um ombudsman.


São, de qualquer modo, vozes do jornalismo opinativo, enquanto o que trago são fragmentos de “notícias”, as que nos chegam credenciadas como “fatos”, portanto irrefutáveis.

Os exemplos parecem ter objetivos comuns, como o de surp    
reender o leitor desarmado da razão, tocando-o na emoção, e de criar predisposição contra (ou favorável) determinadas pessoas ou instituições. Mas podem ser separados em grupos distintos:

1) O grupo dos que usam artifícios para minimizar o impacto de uma notícia favorável a quem se deseja denegrir. É o caso daquele exemplo em que Lula aparece agressivo sem razão para estar, já que a notícia dava conta de que ele era líder nas pesquisas eleitorais;

2) O dos que, deliberadamente (mas que poderão ser justificados como erros ou distrações), falseiam a notícia de modo que ela possa ser entendida de forma negativa, sem que “tecnicamente” a verdade tenha sido alterada. Encaixam-se aí imagens em que o Lula aparece só ou com poucas pessoas, evitando-se mostrar as multidões que o ouviam. Ou o “sinônimo” espertamente utilizado no título: os advogados de Lula haviam solicitado o “adiamento” do processo, em respeito a seu luto pela morte recente de sua mulher, e não a “suspensão” desse processo, o que causou revolta entre antilulistas. A justificativa humanista do luto e a insensibilidade do juiz certamente passaram despercebidas pelo jornalista.

3) O dos que alteram o fato. A imagem retocada de Lula, de modo a torná-la ofensiva, ou a do gráfico que mostra Alckmin subindo nas pesquisas quando, de fato, começa a despencar.

4) O dos omitem o fato. Geralmente, multidões.

5) O dos que estabelecem um peso e duas medidas, o tratamento diferenciado que deixa claro a quem o jornalista/jornal pretende destruir ou esconder.

Em favor dos jornalistas admito que a imparcialidade e a objetividade são mitos.

Mas até por isso devem ser metas. Horizontes a serem perseguidos incansavelmente.

Deixar-se seduzir pelo brilho do tal “quarto poder”, aquele capaz de construir heróis e destruir biografias, é desonrar os profissionais comprometidos com a verdade.

Se havia interesses comerciais ou políticos escusos (ou seja, vindos da hierarquia superior) ou se eram apenas frutos de automação psíquica (que substitui processos conscientes por reações imediatas) fundada no ódio ou, ainda, se eram coisa pensada de indivíduos imbuídos de antipetismo cego, deixo para quem queira julgar. Da minha parte, apenas apresentei alguns desses exemplos de jornalismo destrutivo, como oportunidade para discussão, explicação ou até, quem sabe?, esclarecimento de que não passam de fake news.

Difícil acreditar.

Um dos colegas nas respostas a esta pergunta menciona o chamado PIG (Partido da Imprensa Golpista), até colocando a Folha como seu grande líder. Infelizmente ela está longe disso. Infelizmente porque o que se produziu de jornalismo parcial no período foi ainda pior.

Quanto ao caso de Bolsonaro, não vi até agora nada de tão fantasioso, pelo menos na comparação com as aberrações que o próprio presidente eleito fez questão de difundir ao longo de sua vida pública. E ainda não temos histórico suficiente.

Mas temos um confronto a ser acompanhado em 2019.

A Folha fez a denúncia de que empresários que apoiavam Bolsonaro teriam bancado disparo em massa de mensagens pelo Whatsapp contra o PT (para resumir bem a história). Bolsonaro respondeu em mensagem na mesma rede social com clara ameaça: “A mamata da Folha de S.Paulo vai acabar, mas não é com censura, não! O dinheiro público que recebem para fazer ativismo político vai secar...”

Agora é ver como fica.

A Folha vai afinar? Mas se entrar em guerra, no nível rasteiro da travada contra o PT, contará com a “compreensão” com que foi brindada pelo governo Dilma?



https://qr.ae/pvkYeC


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É natural que você tenha entendido assim, porque o título da matéria jornalística do seu link foi feito para enganar. Por isso é chamada de Notícia Enganosa (diferenciando-se da Fake News típica). É uma técnica que é tiro e queda nestes tempos de internet em que mais e mais pessoas se informam por títulos. Tente a releitura e descubra se há algo de errado com ele:

Não vai descobrir. É o chamado crime perfeito, esse da jornalista Ana Paula Ramos. Qual o truque para a manipulação? As palavras “com despesas”. Se elas fossem excluídas em favor da objetividade, o título ficaria mais curto e, principalmente, correto:

Em viagem à Europa, Lula levará assessores pagos pelo contribuinte

Pronto: num passe de mágica o contribuinte não está mais pagando as despesas do Lula. Como eu sei que essa é a informação correta e que houve evidente tentativa de manipulação ideológica do leitor?

foto que acompanha o título é sempre grande pista para identificar uma reportagem com finalidades de manipulação. Nesta, você pode observar o Lula comemorando, como se estivesse fazendo pouco do contribuinte. De nós todos, no caso. Foi escolhida a dedo, como mostrarei em outros exemplos mais adiante.

sugestão, no sentido de influência emocional, realmente funciona: não à toa é a palavra escolhida para nomear o efeito hipnótico. Para ter uma ideia de como isso pode funcionar fora do âmbito ideológico, sugiro que dê uma lida nesta minha resposta:

Resposta de Renato Chevalier a Quais são as melhores introduções de personagem em filmes?

E como sei que a informação correta é a do título reescrito? Porque eu li a matéria. Qualquer pessoa que a leia vai entender:

"Durante esse período, será acompanhado por quatro assessores que terão as despesas pagas com o dinheiro do contribuinte.(...)

O direito aos quatro servidores para atividades de segurança e apoio pessoal está previsto na Lei 7.474/1986 e no Decreto 6.381/2008.(...)

O valor não inclui as despesas com passagens aéreas(...)"

Mesmo quando não consegue escapar da verdade, os truques da jornalista estão ali.

Achou?

Dinheiro do contribuinte”. Ela tenta pegar você pela emoção. O seu dinheiro! A objetividade, mesmo que mito – já tive oportunidade de escrever aqui -, deve ser perseguida como quem persegue o horizonte. É um desafio permanente do jornalista responsável. Se não houvesse a intenção da manipulação, palavras mais neutras poderiam ser “...pagas pelo governo”, ou “pelo tesouro”.

E poderia ser ainda enganoso (sem ser necessariamente mentiroso), já partindo para um toque panfletário: em vez de usar contribuinte, que é mais genérico, usar a palavra trabalhador, aproximando mais denúncia a quem trabalha e associando-a mais a Lula, historicamente comprometido com a defesa de trabalhadores. Como você fez em sua pergunta.

"Atividades de segurança e apoio pessoal". O uso de "assessores" já no título e nas primeiras linhas da matéria passa ideia errada, embora a informação esteja, tecnicamente, correta.

Outro truque é o de informar o número da Lei e o leitor é que se vire. Por que ela não facilitou para o leitor? Porque isso mostraria que é direito de qualquer ex-presidente.

E há ainda o truque da omissão: mais que explicar que é um direito, esclarecer que todos os ex-presidentes o usam, não só os do Brasil. Explicar também que parte dos assessores (se não todos) são seguranças e que, no momento, poucos ex-presidentes do mundo correm tanto risco de vida, em razão da polarização ideológica.

Quatro “assessores”. Identificar afrontas à ética como essas, naturalmente nos leva a desconfiar de toda a informação. Por exemplo: o texto sobre os “quatro servidores” está correto, em parte, mas a legislação permite até oito cargos! Serão quatro mesmo os servidores requisitados? Qual a fonte da jornalista? Ela entrevistou a assessoria de imprensa do ex-presidente? Porque da última vez, para a visita ao Papa, apenas três foram solicitados.


Esta matéria não é a única a aplicar as técnicas de manipulação ideológica contra Lula. Veja outro exemplo de notícia enganosa de 2010 e como ela repercutiu nove anos depois:

Essa notícia, assim como os textos mais abaixo eu tirei de outra resposta [1]minha:

É o tipo notícia que faz todo manipulador babar de inveja por não ter ele mesmo feito: a desinformação sem nenhuma mentira. Porque, de fato, Lula vetou o projeto. Foi a coisa sensata a fazer: três das vacinas já faziam parte do calendário (leia no subtítulo da própria notícia) e outras duas estavam prestes a ser incluídas por decisão anterior do Ministério da Saúde.

Mas…

Afinal, para que ir adiante no texto quando o título já diz o que se quer ouvir? Assim, a ferocidade nas redes sociais eliminou qualquer resquício de humanidade e compaixão para aplaudir a morte do neto, ou desejar a morte de outros netos, para que Lula sofra mais, “para que verta lágrimas de sangue”, como acentuou um desses seres peçonhentos.

Observou como a foto escolhida reforça emocionalmente a mentira?

Veja outro exemplo:

Se quiser saber mais sobre manipulação, há dezenas de outros exemplos no link mais abaixo.

Notas de rodapé


https://qr.ae/pvkYcP


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Sim, e como manipulam! E, pior, essas desinformações ficam sempre prontas para se levantar do túmulo, mesmo que desmentidas, e ampliar a sua destruição assim que surge uma oportunidade. Como a que ocorreu agora (março de 2019) com a morte do neto de Lula, causada por meningite.

Rapidamente a notícia enganosa abaixo, de 2010, voltou a ser compartilhada nas redes sociais, atiçando o ódio incontido de muitos pelo ex-presidente.

É o tipo notícia que faz todo manipulador babar de inveja por não ter ele mesmo feito: a desinformação sem nenhuma mentira. Porque, de fato, Lula vetou o projeto. Foi a coisa sensata a fazer: três das vacinas já faziam parte do calendário (leia no subtítulo da própria notícia) e outras duas estavam prestes a ser incluídas por decisão anterior do Ministério da Saúde.

Mas…

Afinal, para que ir adiante no texto quando o título já diz o que se quer ouvir? Assim, a ferocidade nas redes sociais eliminou qualquer resquício de humanidade e compaixão para aplaudir a morte do neto, ou desejar a morte de outros netos, para que Lula sofra mais, “para que verta lágrimas de sangue”, como acentuou um desses seres peçonhentos.

Já, já você vai ver uma coletânea com outros recortes de jornais e revistas que deixam muito claro como a manipulação ocorre, em quantidade e variedade suficientes para erigir aqui um verdadeiro museu do horror, aberto 24 h, emblemático do desrespeito ao leitor. São exemplos do pior jornalismo que, espero, funcionem como um grito do tipo “tortura nunca mais”.

Esta é também a oportunidade que tenho de ser justo com a Folha de São Paulo. Ao responder a outra questão no Quora direcionada exclusivamente a esse grupo jornalístico, só apontei exemplos de notícias manipuladoras publicadas por ele. É hora de abrir mais o leque. Mas não prometo que a Folha não aparecerá novamente.

Mantenho o mesmo período de publicações já tratado nesse texto sobre a Folha, para estabelecer a relação e limitar o excesso de exemplos colhidos aqui mesmo, na internet. Pelas mesmas razões, fico apenas no universo da mídia tradicional, com a exceção dos portais de internet a ela ligados.

Ficam esses exemplos à espera de quem quer que tenha estado nos bastidores da concepção de cada um deles para explicar que não, que há algum lado que não estou vendo e que não se trata de manipulação barata.


Voltando à resposta:

Sim, e como manipulam!

São muitos os interesses: vaidade, dinheiro, vingança, política - sem esquecer a irresponsabilidade que rega tudo isso.

E há razões que a própria razão desconhece. Essas as mais danosas.

As razões conhecidas geralmente vêm de hierarquia superior. Do dono.

Até aí não há mistério, pois como diz o filósofo Noam Chomsky:

“O propósito da mídia não é informar o que acontece, mas sim de moldar a opinião pública de acordo com o poder corporativo dominante”.

Para esse propósito, a anatomia da mídia brasileira é especialmente favorável, já que composta por grupo mínimo de donos. São os Frias, do Grupo Folha; os Mesquita, Grupo Estado; os Civita, Abril; os Marinho, Globo; os Saad, Brandeirantes; família do Edir Macedo, os Sirotsky, da RBS. Esqueci alguém? Fato é que os controladores de mais da metade da mídia brasileira (incluindo aí emissoras de rádio e TV, portais de internet, revistas e jornais impressos) podem ser facilmente reunidos em uma simples mesa de restaurante. Têm dessa forma agilidade suficiente para ações de sintonia de interesses para permitir aberrações como a que apareceu nas bancas no início de fevereiro de 2018, pela reforma da Previdência.

Mas não podemos pôr tudo na conta dos donos dos jornais. Afinal, eles não são donos de fábricas de embutidos ou de bolachas recheadas. Jornais são feitos por jornalistas, não por ingênuos desinformados que ajudam a separar a nossa cota cancerígena de gordura saturada ou trans.

A PERGUNTA DE UM MILHÃO DE DÓLARES

Como é que esses donos conseguem o apoio de grupos tão grandes de... intelectuais?

Arrisco umas ideias:

1. jornalista também é ser humano. Para muitos desses humanos, infelizmente, o trabalho é apenas um emprego, do qual faz parte a sincronia com a “linha editorial” do veículo. Assim, como quem está na linha de produção de bolachas.

2. Uma vez assumida a “linha editorial”, esse ser humano defenderá até o fim da vida o ponto de vista que publicou como sendo seu. E para garantir a si mesmo que é realmente o que pensa, o reproduzirá infinitamente, seguindo a técnica descrita por Hitler em Mein Kampf (limitar-se a alguns pontos e repeti-los sem parar). É a tal dissonância cognitiva em ação, o desconforto que sentimos como resultado de crenças discrepantes.

3. Há também o efeito manada de Nietzsche, que nos leva a reagir de forma igual ao grupo. Ou o viés de confirmação de Watson, da busca de informações que confirmem as nossas, fazendo-nos tomar, em grupo, posições radicais que não tomaríamos individualmente. Teorias não faltam.

4. Outro aspecto, também importante, é que esses humanos não são blindados à desinformação, como mostrarei adiante. Então, em algum momento estarão confortáveis no melhor dos mundos: acreditando na ética do que produzem (a desinformação a qualquer custo) e agradando o patrão.

Antigamente, anos 70, por aí, a manipulação era, pelo menos, um pouco mais livre de amarras corporativas e mais debochada, feita para rir (e talvez vender algumas cópias a mais da edição, porque ninguém é de ferro), na onda em voga do sensacionalismo barato. É dessa época a manchete do “Diário da Região”, do interior de São Paulo:

Papa virá a Rio Preto

Bem pertinho da chamada, uma foto do papa de então. Só que quem iria a São José do Rio Preto era o político José Papa Jr. Na foto-legenda do Papa uma menção sem maior importância ao pontífice.

Veja agora como a mesma “técnica” se desenvolveu para jornalismo destrutivo de hoje. A principal notícia, no caso, foi a apreensão de 51 milhões de reais, em dinheiro, encontrados em um apartamento emprestado ao ex-ministro Geddel. A de Lula era apenas uma denúncia requentada. Veja como ficou:

Até a atriz contratada da Globo, Patrícia Pillar, não aguentou e protestou.

E, realmente, ela tinha razão: comportamento de jornais menores:

A Veja mostra “competência” para ajustar a ideia a uma capa de revista:

Outro exemplo mais antigo (8/11/2013), desta vez, da Folha:

Bom, o prefeito que “tinha ciência de tudo” só pode ser esse emburrado, o petista Haddad, não é? Não! Ele era o herói da história, investindo contra a Máfia do ISS. O prefeito vilão, cujo cargo aparece no título enfeitado por insuspeitas aspas, era o EX-prefeito Kassab.

E mais um que se enquadra dentro dessa mesma técnica de manipulação, publicado na edição eletrônica da Veja:

O detalhe enganoso é que nem Lula nem Marisa estavam na lista. A seta ao lado da foto indica que a foto pode ser mudada, mas a foto número 1, que aparecia já aberta para ilustrar o título, é essa acima.


BARRIGAS E WISHFUL THINKING

Dictionary.com escolheu o termo “Misinformation” como a Palavra do Ano 2018. Por definição é a informação que começa como desinformação (ex: fake news) e que, na inocência, podemos passar adiante, tendo-a como verdadeira.

Não há tradução precisa no dicionário, mas o jornalismo já conhece esse significado de velha data, só que com outro nome: barriga.

Ué, mas jornalista experiente de veículo importante também cai em desinformação, a ponto de passá-la para frente?

Sim, sim, sim.

A mais famosa barriga é a da Veja, que caiu num “primeiro de abril” da revista britânica New Scientist e publicou a falsa notícia de que alemães teriam criado um híbrido de boi com tomate, que revista brasileira chamou de “Boimate”.

Eram inícios dos anos 80. Quáquáquá. Os patos caíram. Anos divertidos.

Agora observe como isso se transforma em exemplo de falta de ética. Primeiro a Revista Istoé lança em reportagem de capa o seu nada inocente “Primeiro de Abril”, na última semana de outubro de 2016:

Ainda era época de busca por um crime para Lula e a Istoé propôs uma mansão no Uruguai, porque vários brasileiros que passavam por lá, instigados por determinada guia turística, apontavam o dedo e diziam que era a casa do Lula. Teve um que até fotografou, de dentro do ônibus, diz a reportagem! Era evidentemente uma brincadeira, mas a revista a levou a sério. E montou a fake News.

Só pela falta de consistência na reportagem, vários veículos e blogueiros já desconfiaram, mas vários outros a replicaram, incluindo um velho e experiente jornalista global, o Alexandre Garcia.

Mas como é que um jornalista experiente, no alto dos seus quase 80 anos, consegue cair numa história fantasiosa dessas?

Do mesmo jeito que qualquer outro ser humano, experiente ou não, jornalistas ficam muito sensíveis a acreditar quando ouvem exatamente o que lhes agradaria ouvir. É o wishful thinking, a vontade de crer.

Alexandre Garcia, como se sabe, não esconde sua ideologia. Foi porta-voz do ex-presidente, general Figueiredo, durante a ditadura militar, e só perdeu o cargo porque posou em uma cama para a revista masculina Ele&Ela, coberto apenas por uma toalha felpuda, deixando a declaração em nada politicamente correta: “É aqui que eu abato minhas lebres”.

Bem mais tarde, segunda semana de novembro, o Alexandre Garcia até se retratou por ter mentido sobre mansão de Lula, mas até aí morreu Neves...

Duro é que os desmentidos nem de longe têm a força das mentiras.

Veja este exemplo de notícia falsa, em grande destaque:

E aqui o simplório desmentido:

Esta história inventada pela revista Veja, sobre a festa do sobrinho do Lula, também é bom exemplo:

Internautas sugeriram até mudar o nome da coluna de “Erramos” para “Mentimos”.

Para esta estrondosa reportagem mentirosa (segundo carta da própria embaixada italiana), não vi nem “Erramos”, nem “Mentimos”...

Mas mesmo quando a justiça obriga a conceder o Direito de Resposta, como no caso da reportagem mentirosa a seguir, o que sai tem resultado quase nulo.

No caso específico, a reportagem saiu na véspera do segundo turno das eleições presidenciais de 2014, em distribuição antecipada para a quinta-feira antes do domingo de votação. Quando o direito de resposta saiu não seria mais possível desfazer o estrago feito na candidatura de Dilma que, ainda assim, conseguiu a vitória.

A ficha falsa de Dilma, publicada pela Folha em 2009 e incansavelmente reproduzida por blogs da direita, foi uma típica barriga, como o próprio jornal admite. Recebeu a ficha por e-mail de um site ultradireitista (“Terrorismo Nunca Mais”) e afirmou a seus leitores que a sua origem era o DOPS. Pior: deu a entender, em sua justificativa, o absurdo de que publicou porque a autenticidade na ficha não podia ser provada, mas também não podia ser descartada. Admitiu os erros, mas não se desculpou. Nas eleições de 2014, a falsa ficha voltou a circular.

De volta à Istoé: seis meses antes da notícia da mansão do Uruguai ela já havia tentado outra obra de ficção, agora contra Dilma, também em reportagem de capa devidamente photoshopada para dar dramaticidade:

6/abril/2016

Até críticos de Dilma perceberam o machismo e a misoginia que encerrava a matéria de capa, ao tratar sobre supostos casos de descontrole emocional.

Nem por isso a “reportagem” deixou de ser repercutida.

É natural. As pessoas simplesmente adoram espalhar mentiras. Isso foi comprovado por estudiosos do MIT e está detalhado na revista Science (https://bit.ly/2D- cvbzH). O compartilhamento de fake News é 70% maior que o das histórias verídicas.

bbc.com

JORNALISTAS FICCIONISTAS

A glamourização de histórias reais sempre existiu na imprensa.

Exemplo: o nome “Maria Bonita”, para a mulher do cangaceiro Lampião, foi apelido carinhoso (e com apelo sensacionalista) dado pela imprensa, que pegou só depois da morte dela, como informa a jornalista Adriana Negreiros em seu livro “Maria Bonita”.

E isso nem é exclusividade da imprensa nacional. O noticiário internacional está cheio de histórias inspiradas em fatos, mas escritas como ficção para que jornalistas se lancem a campo com o desafio de dar um mínimo de veracidade a elas. Uma vez ou outra essas fraudes são descobertas. São casos em que raramente os donos do veículo têm alguma culpa.

Como o “Caso Relotius”, o do maior escândalo da revista alemã Der Spiegel, conhecida pela seriedade com que analisa tudo o que vai ser publicado, através de um dos maiores departamentos de checagem de fatos do mundo, com cerca de 80 profissionais. Pois foi ali mesmo que Caas Relotius emplacou 60 reportagens, das quais admite que, pelo menos 14, foram inventadas para torná-lo um dos mais premiados jornalistas da Europa.

Seu objetivo? Sucesso pessoal e dinheiro.

É claro que essas reportagens ficcionais devem ser condenadas, pois trazem carga de bomba manipulativa. Mas perto do que aconteceu no Brasil, não passam de meros pecados veniais.

Xixi inocente de criança na piscina.

O que ocorreu no Brasil, da forma como ocorreu, nunca vi na imprensa tida como grande. Nem aqui, nem em lugar nenhum do mundo.

Entre os que me escreveram em meu outro texto sobre a Folha houve quem achasse “natural” o tipo de publicação, possivelmente por não conseguir enxergar diferença entre esse jornalismo deformante e a publicação de denúncias, uma das principais missões da imprensa.

Por isso, insisto em mostrar mais e mais exemplos desse período sombrio para que uma hora essa distinção surja como um estalo luminoso.


DEMONIZAÇÃO CONCERTADA

O que distinguiu a imprensa brasileira no período de que trato aqui não foi algum tipo de glamourização, com o seu toque mais autoral, nem o jornalismo marrom, o do sensacionalismo em guerra comercial.

O que vimos foi uma imprensa unida pela razão embotada, hipnotizada, com parte considerável de seus jornalistas atuando como zumbis intelectuais.

Note que não critico o rigor da imprensa sobre fatos que revelem malfeitos.

Mas que dizer da simples demonização de pessoas ou de instituições por meio de imagens como a do exemplo abaixo?

4/5/2016 – Cerimônia de acendimento da tocha olímpica no Planalto. O Estadão expressa o mais perfeito discurso de ódio, com a queima simbólica de uma mulher que seu editor gostaria de chamar de bruxa.

Observe também o tamanho do espaço que a foto ocupa na primeira página do jornal e como a manchete se soma a ela em significados perversos.

A manchete. Não tem um algo de déjà vu? Sim, é muito parecida com a que já apresentei anteriormente, mas que seria publicada quatro meses depois, com as malas de dinheiro de Geddel, demonstrando que essa notícia em setembro não seria assim tão importante para o destaque dado, mas simples desenrolar do que já acontecia e sem nenhuma surpresa.

Se, por um lado, um veículo importante fazia discurso de ódio contra Dilma, por outro...

...o seu principal concorrente já havia, dois dias antes, usado o espaço mais caro para ridicularizar nosso governante do mais alto escalão com flagras de um prosaico incômodo causado a ela por uma mosca.

E quando a foto não ajuda, sempre há os milagres dos editores de imagem.

Primeiro, as fotos sem manipulação: duas de uma série tirada pela fotógrafa Louise Botkay em um ato de apoio a Lula organizado por artistas e intelectuais numa casa de espetáculos no Leblon, no Rio de Janeiro. Lula usa um paletó presenteado pelo presidente boliviano Evo Morales.

A foto manipulada pelo Estadão, tirada de outro ângulo por Mauro Pimentel, sem dúvida faz parte da mesma série de movimentos do ex-presidente. Nela, com ajuda de um editor de imagens, o público foi recoberto por um fundo preto e... milagre! O que era alegria virou pesar, choro. A foto foi preparada para ilustrar a condenação de Lula pelo TRF4. Nota: ele não estava presente.

Por favor, alguém me convença de que essa manipulação não existiu, que é um terrível engano do tipo “parece mais não é”, para que eu possa retirar esse exemplo horroroso daqui.

Já esta edição de imagem, publicada pela Veja, seguramente existiu:

Lula entre sua mulher, Marisa, e Rosemary, a sua “amiga íntima”, segundo denunciava a imprensa com estardalhaço, sem conseguir provas. Esta foto? Grotesca montagem. Veja a seguir a original:

E este exemplo abaixo, que achei tal como está na internet, também é engano?

(Não sei se foi publicado também no Estadão. Encontrei a segunda foto na edição online da Veja do dia 13/12/2015, assinada por Ueslei Marcelino/Reuters)

Aqui a mesma multidão de março serve para retratar a manifestação de dezembro.

Se até inventar multidões é possível, mais fácil é excluí-las, dentro do princípio “Se não passou na Globo, não aconteceu”.

Veja o comentário da escritora Marcia Denser:

A obsessão cega do manipulador faz enxergar forças subliminares em todo o lugar e não arrisca nada, como mostra o jornalista Alberto Villas:

Se achar melhor a gente tira a "Força"...

6/4/2016

Quem tem medo da persuasão oculta que as mensagens podem trazer, também pode criar as suas próprias, como a da imagem abaixo, em que a pessoa a ser demonizada aparece de mau humor e nem tem o seu nome citado, como se fosse o próprio vilão de Harry Potter, o Lorde das Trevas, Voldemort, tão temido que é referido como “Você-Sabe-Quem", ou "Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado".

Dizem que estatística é a arte de torturar os números até que eles digam o que queremos ouvir. Quando nem isso dá certo, a GloboNews sempre pode dar um jeitinho no gráfico – como neste, em que o baixo índice desemprego da era Dilma, de apenas 4,7%, ficou quase igual ao índice mais alto, 6,7%, do Chile.

Título do UOL (14/9/2016), abaixo, induz leitor a pensar (como demonstram os comentários) que Lula teria uma fortuna de 87 milhões.

Antes disso, em 7 de abril de 2016, o site Brasil247 havia denunciado:

E em junho de 2017, mais duas denúncias do jornalista Alberto Villas:


DANÇANDO CONFORME A MÚSICA

Precisa de explicação?

28 Setembro 2016 | 05h00/

08 Fevereiro 2017 | 03h00/


À MODA CHACRINHA

“Eu não vim para explicar, eu vim para confundir.”

Confunde, mas com direção definida.

7/4/2017

Ou vice-versa:

Início de março de 2016. A vez do destaque para a notícia ruim...

...e a vez a da notícia boa.


QUANDO INTERPRETAR É DESINFORMAR

Jornal de Belo Horizonte, cria o impossível, deturpando completamente o artigo do cientista político Leonardo Sakamoto. Diz ele: “Publiquei no blog, no dia 30 de dezembro, o texto "Três formas para convencer os pobres que aumentar o salário mínimo é ruim" - uma crítica aos discursos contrários ao reajuste”.


DOIS PESOS, DUAS MEDIDAS

Dilma é hostilizada, Temer também, mas…

13 de junho de 2013- site Iconoclastia Incendiária


A METRALHADORA DE ÓDIO

Se não falar nada é uma forma de manipulação, falar em exagero também pode ser. Depende do que se fala.

Em depoimento de Lula a Moro ele afirmou que, ao longo do ano, a Globo havia usado nada menos que 18 horas e 15 minutos para difamá-lo.

A informação parece fazer sentido ao analisarmos este quadro estatístico, disponível na internet, referente a uma semana de abril de 2017:

*Considera as edições do "Jornal Nacional" de 3ª feira (11.abr.2017) a 2ª feira (17.abr.2017)

O JN pode ter se esforçado, mas nada se compara ao apedrejamento público empreendido pela revista Veja contra Lula e o PT.

De 1979 a 2017 Lula apareceu de forma negativa na capa da Veja nada menos que 60 vezes, um recorde. Não sei de outro órgão da imprensa mundial que tenha praticado jornalismo persecutório tão obsessivo em relação a uma pessoa.

Um ano antes, em 2016, já havia capas em número suficiente para José Simão fazer piada:

Algum não assinante da Veja pode querer fazer pouco do impacto dessa campanha de destruição de biografia, por não se sentir atingido por ela.

Isso se ele não entrar em consultórios médicos de qualquer especialidade na cidade de São Paulo. Diria num chute que Veja, incluindo edições antigas, é presença garantida em pelo menos 90% deles.

E isso se não for criança em escola pública do estado de São Paulo, período mais propício de um humano para receber lavagem cerebral.

Não à toa que o filósofo Karnal tenha opinião tão ruim em relação ao leitor de Veja, como ele revela em palestra a turma de pós-graduação de História:

http://cartacampinas.com.br/2015/12/karnal-quem-le-veja-nao-esta-dividido-com-nada-e-absolutamente-fascista/

Nenhum jornal está livre de vieses e erros, mas alguns fazem um esforço honesto de descobrir a verdade, enquanto outros são máquinas de lavagem cerebral.

Yuval Noah Harari – 21 lições para o século 21

Não custa repetir: todas as imagens publicadas nesta resposta foram inicialmente difundidas aqui mesmo na internet, praticamente todas para sustentar alguma denúncia de manipulação. Meu principal trabalho foi o de reuni-las, dando alguma ordem ao caos.

Estou aberto a retificações e até exclusões, se elas nos levarem mais próximos à verdade dos fatos.


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Obrigado por sua participação, Rafael. Estou plenamente de acordo com você no que diz respeito a clickbaits.

Olha, não nutro nenhuma paixão por Bolsonaro, mas com toda a sinceridade torço para que nenhum veículo faça com ele ou qualquer um o que foi feito com o PT. Mais por causa da ruína do próprio jornalismo brasileiro que pela das suas vítimas. Os exemplos que expus na minha resposta mostram o mais baixo nível a que o jornalismo pode chegar e, pelo menos por enquanto, estão a léguas de distância do que se produz sobre Bolsonaro. Por isso, realmente não entendo como você pode ter passado por esses exemplos que dei e ainda assim achar que o jornal é “de esquerda”. Isso é wishful news, aquela notícia que a gente deseja que aconteça e, por isso, estamos predispostos a aceitar sem o crivo da dúvida.

Tentei localizar os seus exemplos. Em princípio, toda notícia já é passado e, portanto, os jornais têm como regra, em seus manuais de redação, fazer seus títulos NO PRESENTE. A menos que exista um passado do passado (ou um futuro). Foi o que aconteceu na notícia do seu exemplo:

O passado próximo está em “diz Itamaraty”, enquanto a ex-mulher está no passado mais distante de “afirmou”.

Como a notícia foi dada em primeira mão pela Folha, o verbo de que você se lembra, “relatar”, aparece em repercussão de veículos como Veja e Estadão. O título da Veja ficou assim:

Também no passado, como vê. Você pode alegar que a ex-mulher desmentiu tudo, mas a notícia continua válida porque a fonte consultada é o Itamaraty. Então não vejo nada de errado na notícia. Ela não me parece deformada, como nos exemplos que dei. Se existe fumaça consistente, com bons indícios (o que foi o caso), o jornal tem o dever de noticiar.

Não consegui localizar o seu outro exemplo, para melhor análise. Mas, mesmo sem ver, creio que Moro não estava no centro da notícia para ilustrar a matéria, ainda que fosse o mais conhecido caso de juiz que não abre mão do Auxílio Moradia, e sendo ele alguém diretamente beneficiário, no caso de vitória. Então concordo com você.

Não são, de qualquer forma, esses os tipos de notícias que eu denuncio, talvez ligeiramente imprecisas aqui ou ali. O que é notícia tem de ser dada: é missão do jornalismo.

Agora veja esta abaixo. Isto lá é notícia? Olhe que está ocupando o principal espaço da Folha. Não há nenhuma notícia. O que houve foi uma oportunidade de fazer comédia do tipo pastelão com uma pessoa que, gostando ou não, havia sido democraticamente eleita para o mais alto cargo do nosso país e era a nossa representante legal. O objetivo da “notícia” foi simplesmente o de expô-la ao ridículo, humilhá-la, por causa de uma mosca que a perturbou.

Eu consegui esse recorte pesquisando agora, rapidinho, na internet. Nem precisei usar um dos que já tinha publicado.

Então te lanço um desafio. Vá também à internet e poste aqui outras notícias da Folha, abrangendo o mesmo período de tempo, com o mesmo nível de degradação, mas tendo como personagens gente conhecida da direita. O Bolsonaro, o Alckmin, o Aécio, etc. Mas atenção: tem de ser notícia (como todas as que eu publiquei), não jornalismo opinativo, como artigos assinados ou charges.

Ah, sim, sobre o fato de a Folha ser “de esquerda”. Eu deixei claro em minha resposta, que existem veículos que foram mais fundo na lama. O fato é que em um jornalismo como o brasileiro, a comparação se faz sempre com publicações de direita. Então qualquer desvio mínimo pode fazer parecer que o periódico é um extremista de esquerda.

Aliás, uma boa medida é esta: você já viu alguém da grande imprensa brasileira dizer que Bolsonaro representa a “extrema direita” brasileira. Pois praticamente toda a grande imprensa mundial assim o considera. Aqui, a notícia do The New York Times:

Mas, voltando: você sabia que a Folha apoiou o Golpe Militar de 64, não? Mais que isso, foi considerada por seus críticos totalmente subserviente à Ditadura, em especial através do extinto Folha da Tarde. A Globo ainda se desculpou pelo “erro” do apoio, em 2013. Já a Folha relutou e só no ano seguinte “justificou” o apoio, mesmo admitindo que foi errado. E deve ter relutado mesmo, porque em 2009 (vai completar 10 anos agora em fevereiro) a Folha havia renomeado em editorial a nossa Ditadura para Ditabranda! Depois se desculpou, também com relutância, levou puxão de orelha do próprio Ombudsman (ponto para a Folha!) e se desculpou de novo. Mas a opinião que vale ficou.

Ah, mas o próprio editor da Folha fez pesquisa interna e concluiu que a Folha é de esquerda.

Isso se chama dissonância cognitiva. Prometo tratar disso melhor em outra resposta.

Bom, tentarei mostrar mais exemplos assim que tiver um tempo, no entanto se formos falar da veja eu concordaria plenamente contigo. Esse jornal sim eu acredito chegou no limiar quase de fake news contra o PT. Sou hoje uma pessoa de direita, mas não acho que a direita tenha todas as respostas e nem que devemos construir um país com meias verdades. A veja fez isso durante muitos anos e perdeu boa parte de sua credibilidade. Não acho que seja um jornal de direita, mas sim um jornal desesperado para vender.

De qualquer forma não desmereço sua opinião sobre a folha, seus exemplos são verdadeiros.

Sobre a folha como coloquei ali em pesquisa interna deles, a orientação política predominante é da esquerda. Antes e durante as eleições notei que havia um foco em notíciar todas as ações do Bolsonaro e se esqueciam dos deslizes alheios. E muito facil noticiar so o que lhe importa e continuar dizendo que é jornalismo. A globo fez isso durante anos e repetiu a dose quando os sindicatos chamaram por greve geral(assiste o JN um dia antes da greve e eles sequer comentaram que essa greve foi convocada). Tambem vi notícias da Folha que pareciam mais blogs devido ao jornalista expor mais opinião que matéria.

Sobre o extrema direita, ja percebo a alguns anos uma tendência mundial em classificar tudo que não seja centro direita como extrema direita. Isso é triste pois empobrece o debate e cala vozes. Qual seria o limiar entre direita e extrema direita? Quais exemplos históricos podemos recorrer para validar essa classificação? Hoje simplesmente chamam o Bolsonaro de fascista e isso é uma total incompreensão do que foi o fascismo, que aliás é dificil de se definir.

Compartilho aqui uma matéria muito interessante a respeito. What Is Fascism?

Agora sobre o Bolsonaro vejo com bons olhos uma moderação, tipica daquelas pessoas que falavam muito e quando chegam lá vêem que não é bem assim e isso é bom.

Peço desculpas por qualquer error de ortografia e possivelmente alguma falha de concordância, estou escrevendo no trem.

Esqueci de responder uma parte. Peço desculpas por um erro, quando me referia a Folha na verdade me referia ao site da Uol, que tem o nucleo jornalistico da Folha, ja os considero tão próximo que esqueci de especificar. Voltando ao caso da ex mulher de Bolsonaro, esses titulos foram corrigidos. Na época a noticia era nuito proximo de algo assim: ex mulher de Bolsonaro o acusa de ameaça e na propria materia se via que algo do passado, dois depois e tambem depois que saiu da primeira capa mudaram o titulo para ex mulher de Bolsonaro ja o acusou de agressão, que era um titulo mais próximo dos fatos.


Que bom que pode viajar de trem aí onde está!

Obrigado pelo debate sereno. Isso é raro nos dias de hj.

A razão de a Folha ser menos condescendente a Bolsonaro do que foi, por exemplo, em relação a Aécio, Dória ou Alckmin – no que eu concordo com vc – está no que a esquerda convencionou chamar de “direita arrependida”.

O colunista vira-casaca Reinaldo de Azevedo (criador do termo “petralha”) que escrevia para a Veja e a trocou pela Folha é o exemplo mais típico. Mas a Folha também sabe que exagerou na obcecada dose da demonização generalizada do PT, fazendo com que nem mesmo o Suplicy, exemplo de carreira honesta, conseguisse ser eleito. Ela sabe que, ao lado de seus pares na grande mídia, foi responsável direta na eleição de Bolsonaro, contribuindo com verdadeira lavagem cerebral. Ela estava informada por pesquisa que 84% (sim, oitenta e quatro por cento) dos eleitores favoráveis a Bolsonaro acreditavam na Fake News de que Haddad iria distribuir uma cartilha gay às crianças, e não tomou nenhuma atitude de grandeza equivalente.

Agora talvez queira acompanhar Bolsonaro mais de perto para se redimir um pouco da culpa. E é muito importante que faça isso porque funciona, como mostrarei ao final.

Bolsonaro tem sido considerado de extrema-esquerda pela imprensa internacional por causa das declarações que ele próprio deu.

Direita é Dória, que é um liberal como Trump – sendo esse último mais autoritário e, por isso, também tendendo à extrema. São ambos milionários, o que torna mais consistente esse rótulo de liberal – ou neoliberal, para se adequar mais aos nossos tempos.

Já Bolsonaro é simplesmente autoritário. Estaria mais para neofascista - o fascismo puro não teria sentido neste século de globalização. Tem algum dinheiro porque, como vc mesmo disse, não deve ser santo, não porque seja especialmente focado na grana. Tem agora um plano liberal para a economia, mas todo mundo sabe que é o Paulo Guedes. Ele foi enxertado num todo ideológico formado por declarações que não caberiam na boca de direitistas comuns como Dória, May, Macron ou, até mesmo, Trump (algumas delas, sim), para mostrar que:

- É a favor da Ditadura

- É a favor da tortura

- Tem como livro de cabeceira o livro escrito pelo mais sanguinário torturador do Brasil

- É racista

- É militarista

- É homofóbico

- É misógeno

- É armamentista

- Mataria mais de 300 mil, mesmo inocentes.

- Passaria fogo na petralhada

- É lambe-botas dos EUA

Dá para imaginar o Collor ou o Temer nesse quadro? O Maluf até já falou coisas como “quer estuprar, estupra, mas não mata.” Mas todo mundo entende como uma gafe pontual recheada de misoginia, mas ainda assim, muito distante da extrema direita.

Até Le Pen, da extrema direita francesa se colocou à esquerda de Bolsonaro!

Seus defensores dizem que isso é da boca para fora, é ele construindo personagem. É um ator.

Pode ser. Mas muita gente está sendo intoxicada. Os resultados são práticos, estão na rua. Muitos dos que votam nele (e você é ave rara) embarcaram completamente no que Nietzsche chama de “moral de rebanho”, em que a pessoa perde a sua individualidade para assumir um comportamento submisso e irrefletido em relação aos verdadeiros valores da sociedade.

Veja este exemplo:

Então, se a imprensa brasileira não trata Bolsonaro como sendo da extrema direita, a exemplo de jornais estrangeiros, é por pura condescendência.

Também concordo com você quanto a isto: “... vejo com bons olhos uma moderação, tipica daquelas pessoas que falavam muito e quando chegam lá veem que não é bem assim e isso é bom”.

Só acho que isso não acontece espontaneamente. A pressão e cobrança da imprensa tem valor inestimável nesse comedimento.

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