Por que os "esquerdistas" comparam Cuba ao Haiti e não ao Panamá, ou a Estônia comunista com Finlândia capitalista?

No caso de Cuba, a comparação mais natural a ser feita é com o Haiti. Ambas estão em ilhas, vizinhas (apenas 86 km as separam), com histórias pré-colombianas similares, sujeitas a problemas de terremotos e furacões e ambas chegaram ao ano de 1959 vitimadas por terríveis ditadores apoiados pelos EUA – François Duvalier (o Papa Doc), no Haiti, e Fulgêncio Batista, em Cuba.

A comparação é feita com o Haiti porque precisamente em 1959 os dois países tomaram rumos diferentes. Esse foi o ano em que os guerrilheiros de Fidel Castro derrubaram o ditador cubano. Em 1961 uma força militar treinada e financiada pelos EUA tentou invadir a Baía dos Porcos e foi rechaçada. No mesmo ano, Cuba foi expulsa da ONU, por influência do governo norte-americano que também lhe impôs um embargo econômico que já dura mais de meio século. Como defesa a ataques americanos inclinou-se ao socialismo soviético e permitiu a instalação em seu território de mísseis nucleares.

Já o Haiti, sem forças como as de Castro, não apenas teve de se sujeitar ao crescimento do terror policial praticado por milicianos comandados por Duvalier, como ainda tornou o poder dele vitalício, a partir de 1964. Ele morreu em 1971 e foi substituído por seu filho Jean-Claude Duvalier, o Baby Doc, que deu continuidade ao terror através de sua força paramilitar.

Por isso, faz muito sentido a comparação. Dois países muito parecidos, um não aceitou o domínio, inclinou-se ao socialismo e sofre terrível embargo econômico, tendo seu inimigo, a maior potência militar do mundo, a apenas 150 km de distância; o outro fez o que queriam os EUA 60 anos atrás. Qual você acha que se deu melhor?

Qual teria se dado melhor ainda se usufruísse de condições de igualdade para fazer negócios?

Ou, melhor ainda: se você estivesse em posição de mudar os rumos desses países, 60 anos atrás, derrubando ou não a ditadura, que você faria?

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Mas você prefere a comparação com o Panamá. Sim, há alguns pontos em comum, além do idioma.

Por exemplo:

Intervenção

Em 1902 a Constituição da nova república de Cuba foi promulgada com um apêndice que concedia, aos Estados Unidos, o direito de intervir nos assuntos internos da ilha.
Em 1903, os EUA enviam navios de guerra para apoiar a independência do Panamá da Colômbia – isso ocorreu apenas três meses após a Colômbia recusar uma proposta americana para a construção e controle do canal.
Imagine que os EUA tivessem interesse em uma faixa de terra nas fronteiras entre Paraná e São Paulo (Aquífero Guarani? Ou, mais esticada, até a Tríplice Fronteira?) e, percebendo a predisposição separatista nos ânimos sulistas, resolvesse instigá-la e apoiá-la, em troca dessa faixa. Grosso modo, foi isso!

Soberania

Nesse mesmo ano os EUA (que tinham o direito de intervir nos assuntos internos de Cuba) assinaram com o país contrato perpétuo de arrendamento de 116 km² em Guantánamo, para operações navais e mineração. A área foi transformada em prisão e o depósito do aluguel, nunca retirado por Cuba, mal daria para pagar o aluguel de um apartamento em Manhattan.
Em 1999 o Panamá recuperou a soberania sobre o canal. Cuba não vê luz no final do túnel.

Contribuição cubana

Os EUA compraram a massa falida de uma empresa francesa que havia iniciado a construção do canal. A empresa quebrou porque mais de 20 mil trabalhadores morreram vitimados por febre amarela. E aí? Como resolver esse tipo de problema? Com o trabalho de um médico e cientista... cubano, Juan Carlos Finlay. Foi ele quem descobriu que a doença era transmitida por mosquitos do gênero Aedes. A partir daí os médicos americanos introduziram medidas sanitárias que minimizaram o problema da malária e da febre amarela e permitiram o desenvolvimento dos trabalhos da construção.

Um país, um canal

Ou o canal que tem um país. Não é possível comparar o Panamá com nenhum país, porque nenhum outro desfruta da mesma situação. Até 1977, quando o país conseguiu retomar o controle do canal, o que se via era a humilhação no “canal zone”, uma área de 8 km às margens do canal com total soberania americana, onde campos de golfe, clubes de churrasco e os automóveis resplandecentes ofendiam em demasia as “ruínas piolhentas dos bairros” que as envolvem, como registrou o Jornal Le Monde Diplomatique, na ocasião. O Panamá recupera seu canal
Mesmo assim os EUA não largaram o osso e o país-canal não tem outra fonte de renda (mesmo o turismo depende dele). Felizmente para o Panamá... é muita renda.
Um navio já chegou a pagar quase 376 MIL dólares para passar. E até um maratonista que quis passar nadando, teve de pagar: 36 centavos de dólar, mas pagou.
Quem não quiser pode dar a volta pela América do Sul. Mas a maior parte prefere pagar: atualmente quase 6% de todo o comércio mundial passa por ali.

Você acha que Cuba estaria melhor ou pior se trocassem de países?

Porque, sem o canal, o Panamá não tem nada. Nem o chapéu “Panamá”, que, na verdade, é equatoriano.

Para quem tenha interesse, recomendo este livro, disponível na Amazon e escrito por um panamenho.


ESTÔNIA COMUNISTA VS FINLÂNDIA CAPITALISTA

Embora eu já tenha visitado Tallin, capital da Estônia, não sei tanto sobre o país, a não ser sobre o seu povo eternamente entre a cruz e a espada – num momento invadido por nazistas, em outro por soviéticos. Nunca vivi em país invadido, mas imagino que, em uma situação assim, as pessoas tendam a almejar o oposto do que representa o invasor. Muitas vezes uma forma radical de poder, também.

Sei também, por uma exposição que vi do arquiteto Tsuyoshi Tane na Japan House de São Paulo, do incrível Museu Nacional da Estônia, construído sobre uma antiga pista de pouso soviética. A ideia dos estonianos era extirpar aquela cicatriz da lembrança, mas o arquiteto acha que cicatrizes também fazem parte da nossa história, e a manteve. Seu prêmio: a declaração do diretor do museu de que graças ao arquiteto os estonianos serão capazes de superar esse passado ruim.

Ditaduras nunca são boas.

Outra coisa que eu sei com certeza: a Estônia nunca foi comunista. Sei disso porque a Estônia não é exceção – nenhum país do mundo experimentou o comunismo.

FINLÂNDIA

Agora, se a ideia era comparar com um país capitalista, a Finlândia é péssimo exemplo. Há países bem mais exemplares desse modelo, por exemplo, na África ou na América Latina.

Obviamente a Finlândia também pratica a livre iniciativa, como qualquer país do mundo, à exceção de algumas ditaduras ou comunidades não inseridas na globalização.

Mas, como outros países escandinavos, representa o estado forte, do bem estar social. Veja alguns exemplos típicos de demandas esquerdistas:

Identidade de gênero

Num país em que 97% da população é adepta à Igreja Evangélica Luterana, o pastor Olli Aalto submeteu-se a tratamento hormonal e cirúrgico para tornar-se a mulher que sempre acreditou ser.

Saúde

80% dos serviços de saúde são financiados pelo Estado. Ninguém fica sem cuidados por ter pouco dinheiro. Apenas 10% dos médicos trabalham na rede privada.

Educação

Tem o melhor ensino do mundo. Basicamente revolucionou um sistema educacional que era medíocre e ineficaz. Praticamente não existem escolas particulares e as que existem (como a própria Universidade de Helsink) são totalmente subsidiadas pelo Estado, permitindo também a elas poder oferecer ensino gratuito.

Prisão

Esqueça a ideia de grandes populações carcerárias, como nos EUA e no Brasil. Esqueça a razão punitiva, vingativa. O compromisso é com a recuperação do preso – que, frequentemente, aliás, nem fica preso.

Interessante que, pelo alto nível de estudos, muitos dos presos trabalham com notebooks, produzindo soluções de inteligência artificial!

É a terra em que direitos humanos para bandidos existem, sim – com orgulho.


Renato Chevalier

https://qr.ae/pvkzhR

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