Quais são as diferenças entre o que a esquerda acha sobre as posições da direita, e a verdadeira posição?
Isso vai depender de onde vive quem responde. Eu vivo no Brasil.
E esta é uma imagem dramática que você não verá com europeus.
Gonçalo, já tive oportunidade de comentar uma de suas respostas em que você afirmava:
O que distingue mesmo o brasileiro de esquerda é que em vez de se preocupar com as ideias de 2020, preocupa-se com temas de há 200 anos
Eu respondi, com notícias frescas, que temas de 200 anos atrás, há muito superados na Europa, são ainda preocupantes realidades do Brasil.
Eu diria que essa superação a Europa deve ao europeu Marx, aqui tão distante.
Alguns exemplos que dei de como a direita brasileira perpetuava esses temas que, na Europa, só existem em livros de História:
- Decreto de Bolsonaro fragiliza combate ao trabalho escravo no campo
- Cento e trinta anos depois, o Brasil ainda tem seus pelourinhos
- Morador de rua é incendiado
No comentário eu perguntava:
- Existe escravidão na Europa?
Observe que a escravidão continua notícia em 2021 e não se limita só ao campo. Esta é da semana passada (30/01):
Entenda melhor: Leonardo Sakamoto - Megaoperação de resgate de escravizados mostra diversidade do crime no país
- Há casos de chicoteamento de meninos aí?
- Aí acontece de alguém atear fogo em moradores de rua? (Aliás, existem moradores de rua aí para serem incendiados?)
Era só um comentário a resposta; eu poderia ter ampliado em muito os exemplos retirados de manchetes jornalísticas, como esta:
- Bolsonaro exonera equipe e esvazia programa de combate à tortura
Basicamente ele queria (e pode ter conseguido) liberar a tortura em presídios, delegacias e hospícios.
Resposta de Gonçalo Melo para Por que o povo brasileiro tem tanto medo dos comunistas?
Tudo isso que demonstrei, por mais absurdo que pareça, não é fantasia da esquerda sobre a direita. Essas são realidades das posições da direita.
Todas essas ações foram realizadas exclusivamente pela direita brasileira.
Para alguém da esquerda daqui é impensável manter escravos.
Condoer-se da miséria de um sem teto e não fazer nada, acontece; mas é zero a probabilidade de que esse alguém pense em extirpar aquele incômodo social de modo tão cruel.
Aqui isso tudo é muito claro. Já os europeus perderam a noção do que é a direita. Há muitos que vejo defendendo posições de esquerda, achando que o fazem como concepção da direita.
Não é o que eu “acho”.
Recorro a uma resposta a esta pergunta, dada por nosso colega quorano, o português Joaquim Calainho , para comprovar isso.
Veja o que ele enxerga como fantasia da esquerda, opinião que você até compartilhou:
Segundo a esquerda, a direita consiste em adoradores de Hitler (o diabo) (...)
...a verdade é que para 99.9999999% da direita, mesmo "a extrema", mesmo aquele que defenda um regime mais autoritário, Hitler é uma aberração e… o diabo mesmo.
Mesmo que a generalização (“a direita consiste em...”) não subsista a qualquer comprovação, porque a direita não vive de extremistas, a “verdade” colocada é um enorme engano.
Ainda como candidato à presidência do Brasil, Bolsonaro contava orgulhoso a quem quisesse ouvir que o seu bisavô fora soldado de Hitler e, em algumas vezes, seu principal concorrente eleitoral, Haddad, foi amedrontado por pichações de suásticas. Seu slogan de campanha (“Brasil acima de tudo”) foi retirado do Hino Nacional Alemão usado durante o período nazista.
Leia aqui com mais detalhes: NAZISMO ESCANCARA SUA AMEAÇA: Slogan de Bolsonaro é tradução literal do lema de Hitler | Jornalistas Livres
Mais adiante, já eleito, Bolsonaro (com apoio de seu chanceler) mudou o discurso para difundir a ideia de que o Nazismo seria de esquerda, porque trazia no nome a palavra “socialista” (Partido Nacional-Socialista...) - e esquecendo-se de que seu próprio partido, o PSL, trazia a palavra "maldita" (Partido Social Liberal).
Essa ignorância viralizou tanto, através de gente da direita, que tanto a Embaixada da Alemanha como o Museu do Holocausto de Israel (onde Bolsonaro disse a tolice pela primeira vez) se viram na obrigação de se manifestar em público para desmenti-lo.
Mas tudo isso servia apenas para instigar a sua militância.
Nas atitudes, no entanto, jornalistas e chargistas de todos os cantos do planeta sempre o associaram aos nazistas. Este é um criado pelo brasileiro Aroeira, quando Bolsonaro estimulou seus militantes a invadir hospitais que tratavam da Covid-19. Aroeira foi processado pelo governo, mas foi inocentado em nome da Liberdade de Expressão. Pesou também no jugamento o fato de que Aroeira não estava sozinho na opinião:ele era apenas um dos incontáveis cartunistas ao redor do mundo que viam essa relação.
O pior é que o próprio país já começa a ser associado ao partido de Hitler.
Sei que a esta altura você pode estar pensando: ah, mas esse é um caso isolado. Um louco. Uma exceção.
Infelizmente, não.
Este abaixo, à esquerda, é o ex-secretário especial de Cultura, Roberto Alvim, que montou um cenário de inspiração nazista para parafrasear Joseph Goebbels, ao fazer eco com a obsessão de Hitler contra a “arte degenerada.” A música de background, adivinhe... Claro, Wagner. A ópera Lohengrin, preferida do Hitler.
Na de baixo, com Bolsonaro, o governador do Rondônia e sua lista de livros banidos (entre os quais, clássicos como Machado de Assis e Kafka), em clara referência ao Bücherverbrennung, a grande queima nazista de livros, ocorrida em 1933.
O repúdio a livros, é preciso dizer, não se restringe ao círculo de bolsonaristas. Logo no começo do ano passado, por exemplo, o governador do estado de São Paulo, Dória, censurou uma lista de livros de projeto em presídios. Faziam parte da lista autores como Garcia Marques, Harper Lee, Camus e Leonardo Padura.
Apesar de adversário de Dória, ambos estão do lado direito do espectro político, e Bolsonaro deve ter aprovado. Sobre livros didáticos, já declarou que têm “muita coisa escrita”.
Além disso, ele não deve ver utilidade em livros de ficção, já que defendeu redução nos investimentos em cursos de humanas para priorizar o ensino técnico.
Esse, aliás, é um vínculo que se costuma fazer com a direita daqui: o pouco apego à cultura.
Não à toa, nem o ministro da Educação gosta de educação.
Resposta de Renato Chevalier para Por que Bolsonaro não reconhece o perigo da pandemia? -
Para quem assistiu ao fantástico “O Ovo da Serpente”, do Bergman, que reconstitui o ambiente de ódio que precedeu a chegada do Nazismo, vai encontrar similaridades impressionantes aqui no Brasil.
Como no caso da médica espancada por milicianos que faziam regularmente festas proibidas intermináveis (debochadamente chamados de Baile do Covid), não a deixando dormir para continuar o seu trabalho de plantonista na luta contra a doença.
Para os milicianos evangélicos, o principal foco do ódio não é o judeu – pelo contrário, houve até apropriação da bandeira da Israel por eles -, mas os praticantes de religiões afro-brasileiras. Além de proibirem e fecharem com violência esses locais, chegam ao cúmulo de punir moradores que usem roupas brancas, geralmente associadas a essas religiões.
Traficantes evangélicos fecham pacto com milícia para expandir 'Complexo de Israel'
Daria para ficar escrevendo dias e dias sem parar, com exemplos que evocam pesadelos nazistas. Deixo uma reportagem, para quem tenha interesse em mais exemplos.
Tem bolsonarista querendo uma Noite dos Cristais
Edit: notícia de 26/07/2021
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MUITO ALÉM DO NAZISMO
Como diria o jornalista Juremir Machado, na reportagem do link acima, o Nazismo seria de esquerda porque bolsonaristas se colocam à direita de Hitler.
Não dá para saber como o alemão se comportaria nos dias de hoje tendo diante de si o combate à Covid.
Mas sabemos como os negacionistas da direita se comportam, enquanto milhares morrem.
Então chegamos à imagem do princípio deste texto: o máximo que cidadãos ainda conseguem fazer em sua defesa – protestar.
Esse protesto aconteceu na cidade de Manaus pela horrível morte de dezenas de pacientes com Covid, simplesmente pela falta de oxigênio. O governo da Venezuela enviou caminhões com o produto para ajudar a proteger. Nosso ministro da Saúde levou cloroquina.
Abaixo a notícia sobre a técnica de enfermagem que fingia aplicar a vacina. Espetava o paciente e não injetava nada – jogava fora.
Dentro da mesma linha do movimento antivacina:
Ou, só para encerrar, este vídeo preparado por bolsonaristas estimulando os brasileiros a tomar Cloroquina (tratamento precoce) e abandonar a máscara.
Contei com notícias um quase nada das posições da direita aqui. São realidades, não ficção.
Os europeus, que representam apenas um pedacinho do mundo (apesar da sua força econômica e social), já não sabem o que é a direita, porque por aí ela praticamente desapareceu, salvo as exceções que comprovam regras. A pauta da direita aí traz assuntos como bloqueios fronteiriços a imigrantes, proteção ao cristianismo, fim dos casamentos entre homossexuais – comparado com o que ocorre aqui, temas água com açúcar.
Mas não falo só de Brasil. Visite países da América Latina, da África.
Assista a estes filmes indianos, na Netflix:
- O Tigre Branco
- Artigo 15
- Mom
As histórias são ok. Concentre-se no background cultural. Você vai conhecer um milenar e injusto sistema de castas, com terrível opressão a pessoas de castas inferiores; um lugar cheio de misóginos que acreditam em coisas assim:
Basta uma vida para nascer como mulher, mas são necessários 1018 renascimentos para ter o privilégio de nascer homem.
Países que vivem hoje preocupações de dois séculos atrás.
Por que me preocupo tanto?
Cada vez que um europeu desavisado apoia a direita, sem ideia clara do que a direita representa fora de sua bolha ("a verdadeira posição") as pessoas pelo resto do mundo perdem um pouco mais de sua humanidade. Uma adolescente (criança, mesmo) é vendida para a prostituição que atrai europeus. Algumas árvores caem na Amazônia. Contaminamos ainda no subsolo as águas subterrâneas de um dos maiores aquíferos do mundo. E construímos um legado sombrio e vergonhoso para nossos descendentes.
https://qr.ae/pvK3Np
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