Kelman
O Padre Pokémon, como diz o Pedro.
O Brasil está habituado com padres e pastores.
Pastores são como torcedores do Corinthians, ou de qualquer time. Não precisa fazer nenhum teste admissional. Não precisa pagar nada. Não precisa fazer quase nada. Basta você aprender algo da história do time, da formação atual e comprar uma camiseta do time em um camelô. E pronto. Surge mais um torcedor do Corinthians.
Um pastor só precisa saber alguns versículos, vestir uma camisa e de umas cadeiras de plástico. Surge mais um pastor ensinando o Evangelo para alguns crentes.
Mas um padre é diferente.
A formação de um padre cumpre, de modo geral, três etapas: propedêutico (1 ano) - quando o seminarista passa por um processo de adaptação; graduação em filosofia (3 anos); teologia (4 anos) - uma rotina que pode chegar a 12 horas de estudo por dia.
O custo de formação do seminarista é de R$ 900 por mês, em média. Em oito anos de estudo, o valor chega a R$ 86.400.
Kelmon é considerado Padre "fake" porque ele não passou pelo rigoroso processo de formação que a Igreja Católica exige do seu clero.
Ao invés disso, ele foi para o Peru, se encontrou com alguns peruanos que se dizem ortodoxos, e recebeu um treinamento similar ao de um pastor no Brasil.
A verdade nua e crua é que o bolsonarismo se tornou uma religião no Brasil, e tem atraídos dezenas de milhares de fanáticos com o seu discurso reacionário.
Em questão de poucos anos, a tradição milenar da Igreja Católica foi deixada de lado para se apoiar qualquer um que seja bolsonarista. Seja Kelmon ou seja Roberto Jefferson. E a Igreja Católica agora é vaiada quando as missas não são usadas para enaltecer a figura de Bolsonaro.
Porque ele não fala, não age e não se comunica como padre — e é assim porque ele não é mesmo, não de uma igreja que possa ser genuinamente chamada de católica (desculpem aí, mas o catolicismo se baseia em tradição e sucessão apostólica ininterrupta; não é um mercado livre e irrestrito como o evangélico, onde eu mesmo posso amanhã me autoproclamar pastor, ou melhor, bispo de uma nova igreja e experto em minha própria doutrina cristã sem nunca ter feito nem meia hora de curso de teologia). Para começo de conversa, se fosse padre de uma *real* igreja católica, nem poderia se candidatar a um cargo político. A farsa já começa nisso.
Além disso, Kelmon é simplesmente ridículo em querer se candidatar à Presidência, com todos os ônus e bônus que isso embute, e se manifestar dos modos mais veementes e até rudes perante os outros, mas, quando era tratado no mesmo tom e como oponente que de fato era, rapidinho usava seu disfarce, digo, batina como escudo para qualquer crítica, contra-ataque (sim, pois foi ele que proferiu vários ataques e até insultos) ou questionamento. "Nossa, estão atacando um padre, tenha respeito pela religião, que eu sou um sacerdote!" — Ora, que espertalhão, quanto vitimismo! Ou seja, um tremendo hipócrita que se vale de seu (suposto) título de sacerdote para se servir, e não para servir.
Por fim, não bastasse Kelmon ser assim controverso e, sejamos francos, fake da boca à vestimenta, sua igreja ortodoxa peruana também o é (na boa, só essa designação já é o bastante para suspeitarmos) que não é uma vertente histórica e legítima do catolicismo). A história dessa igreja é, para dizer o mínimo, compatível com o histórico bizarro do seu membro mais famoso e do partido igualmente cheio de figuras tão execráveis quanto excêntricas a que ele pertence, não à toa presidido pela velha raposa histriônica Roberto Jefferson.
Não à toa até historiadores de religião nem sabiam da existência dessa igreja até a aparição esdrúxula de Kelmon na vida política:
Como se não bastasse o modo polêmico com que ela foi criada, ela ainda se apropriou do nome de uma instituição respeitável, antiga e totalmente sem vínculos com ela: a Igreja Ortodoxa Malankara da Índia.
Ou seja, é um covil de embusteiros perfeito para alguém como Kelmon se sentir à vontade nela.
Não surpreende que a página oficial da sucursal brasileira de tal igreja no Facebook, tenha míseros 720 curtidas e 774 seguidores:
A tal Igreja Ortodoxa do Peru (e só do Peru mesmo: ela nunca foi reconhecida oficialmente como instituição autônoma do catolicismo em nenhum outro país do planeta), em seu documento oficial enviado à imprensa, corrobora que Kelmon é um de seus sacerdotes, mas também esclarece isto, que obviamente é o verdadeiro xis da questão que diz tudo sobre o que ela e seus representantes são de fato:
Queremos salientar que atualmente não temos nenhum relacionamento com outras convenções Ortodoxas dentro do território do Peru ou em nenhuma das missões no exterior, pois nossos padres missionários nos vicariatos internacionais realizam suas atividades com total autonomia e sempre relatando suas atividades à Sede Arquidiocesana com sede na Cidade Protegida por Deus, de Lima, Capital da República do Perú.
Enfim, Kelmon não é uma mera figura folclórica. É um reacionário que se juntou a outros renegados e reacionários expulsos ou convidados a se retirar de suas próprias igrejas, integrando uma instituição pseudocatólica que não tem qualquer elo com aquelas igrejas católicas ortodoxas que realmente têm uma história contínua no Velho Mundo, remontando aos primórdios do cristianismo.
Toda a falta de seriedade e veracidade que ficam nítidas no relato acima só são confirmadas quando se descobre que Kelmon indicava seu próprio Pix pessoal, e não algo institucional e impessoal, para receber doações que seriam (supostamente) destinadas à sua igreja. Definitivamente o catolicismo, seja romano ou ortodox, não é esse oba-oba e casa da mãe Joana aí.
E fica ainda pior a situação desse engodo:
A contestação de sua formação começou através do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que não aceitou os diplomas de bacharel em teologia e de licenciatura em filosofia que ele apresentou como prova de alfabetização.
Emitidos por um local denominado Mosteiro São Basílio e São Tomé, com brasão da República do Brasil e selo de uma tal Iglesia Católica Apostólica Ortodoxa del Perú, os diplomas “não contêm indicativo de registro no âmbito do sistema federal de ensino”, conforme anotou o MPE.
Esse registro de formação universitária de Kelmon chama a atenção pela inconsistência dos dados e das versões tornadas públicas, por via oblíquas.
O diploma de licenciatura em filosofia é de 20 de fevereiro de 2003 e o de bacharel em teologia, de 7 de dezembro de 2006. Apesar de supostamente terem sido emitidos com três anos de diferença, ambos apresentam as mesmas falhas.
Não têm o número do RG e ambos afirmam que é natural de Salvador, Bahia, embora, como se disse acima, sua certidão de nascimento seja de Acajutiba.
Quem assina os diplomas como diretor acadêmico do Mosteiro São Basílio e São Tomé, que funcionaria no Brasil, é Angel Ernesto Morán Vidal, cidadão peruano que já foi alvo, em seu país, de acusação feita pela imprensa de ser falso padre.
Angel Ernesto Morán Vidal, que se apresenta como arcebispo da Igreja Apostólica Ortodoxa do Peru, deu declarações esta semana para assegurar que Kelmon é, sim, padre reconhecido por sua organização.
A questão é que a organização de Angel Ernesto Morán Vidal não é reconhecida pelas igrejas ortodoxas.
Absurdo mesmo é a direita ter chegado ao ponto de defender e aplaudir essa aberração toda só porque está, alegadamente, "dizendo umas verdades na lata" (como se estivéssemos num Jogo da Discórdia do BBB, e não discutindo política e governança). Mesmo não sendo de direita, eu sinceramente lamento o quão fundo nesse poço os direitistas resolveram se enfiar.
https://www.youtube.com/watch?v=dK4Ja9Jwkpw
Ygor Coelho
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