BNDES - PAISES QUE MAIS RECEBERAM
Por que o Lula construiu portos fora do Brasil? Qual a vantagem disso?
Não construiu, aí é que está toda a essência da pegadinha do malandro (no caso, eles são políticos, militantes e ideólogos de direita). Dizer que "Lula construiu portos fora do Brasil" seria como dizer que o Banco Mundial, o FMI ou outras instituições financeiras de fomento, algumas delas internacionais e outras muitas ligadas a um país particular, "constroem" alguma obra quando concedem um daqueles muitos financiamentos a diversos países.
Seria como eu dizer que, se eu peguei um empréstimo para construir minha casa, e o banco ainda por cima impôs várias condições, influindo até na minha decisão de qual engenheiro, arquiteto e empreiteira deveria contratar, então o banco "me deu" aquela casa. Ou seja, seria não só mentira, mas uma confusão absurda das ideias.
Lula não "construiu portos" nem mesmo deu empréstimos para ninguém. O BNDES, que possui toda uma equipe técnica, e não só agentes políticos, é que, não somente no governo Lula, abriu sua atividade de fomento para emprestar dinheiro para projetos de obras e serviços não somente aqui dentro do Brasil, quase sempre mediante condições de favorecimento a brasileiros na realização deles, porque quase nada neste mundo é feito só por bondade desinteressada.
Assim, além dos juros cobrados sobre o valor financiado — é óbvio, já que é empréstimo, não doação —, essa política assegurava que empresas brasileiras que ofereciam serviços, peças e materiais de construção ganhassem contratos internacionais e vias seguras para penetrar em novos mercados e ganhar dinheiro fora do Brasil, evidentemente beneficiando os empregados delas e, com isso, trazendo riqueza de volta para o território brasileiro.
Evidentemente, como em todo e qualquer empréstimo, há o risco de calote ocasional (no caso do BNDES, foram muito poucos os casos, considerando que houve financiamento de obras em dezenas de países, e os casos de calote ou atraso de pagamento cabem nos dedos de uma mão). No entanto, é também igualmente evidente que esse risco já está calculado e embutido dentro dos juros cobrados de todos, inclusive dos que pagam tudo direitinho e em dia.
O que importa, para todo e qualquer banco, não é o resultado individual de cada empréstimo, mas o somatório, pois uns sempre pagam pelos outros. O BNDES, até 2022, havia emprestado 10,5 bilhões de dólares para financiar obras no exterior, recebendo em troca 12,8 bilhões na forma de pagamento do valor principal mais os juros sobre eles. Assim, o saldo era positivo em 2,3 bilhões de dólares.[1] Isso, obviamente, não inclui o lucro das empresas brasileiras contratadas e o efeito econômico em cascata que é gerado pelos acessórios necessários à execução dos serviços, pelos salários pagos aos empregados, pelas peças e materiais comprados por elas a outras empresas, etc.
Por sinal, poucos sabem que o país onde mais foram realizadas obras por empresas brasileiras financiadas pelo BNDES foram os Estados Unidos, o que lança por terra toda a narrativa dos obcecados com dicotomia ideológica sobre haver algo "comuno-socialista" (ou outro termo besta da modinha) por trás dessa operação perfeitamente capitalista. Em 2019, de todos os 48 países em que obras financiadas a juros pelo BNDES foram feitas, somente havia casos de calote ou atraso prolongado no pagamento dos empréstimos tomados em 3 países: Cuba, Moçambique e Venezuela, uma ínfima minoria.
EUA são maior destino de operações externas do BNDES | Monitor Mercantil
Isso não é nenhuma novidade nem uma invencionice aberrante. O mundo inteiro, ou melhor, os países que têm pretensões e condições de serem um dia uma grande potência global ou ao menos regional também pratica isso, pois sabem que estamos há gerações num mundo globalizado, e o desenvolvimento de uma economia não deve ocorrer só dentro das suas fronteiras, inserindo-se, pelo contrário, em uma teia planetária de laços econômicos que vão muito além de simplesmente produzir bens aqui e os exportar.
Aliás, bancos de fomento públicos são usados no mundo todo, ao menos por quem tem dinheiro para isso e um plano de projeção de sua economia e poder geopolítico, para financiar, com juros "camaradas", as exportações de empresas nacionais, incluindo as exportações de SERVIÇOS (que são cada vez mais uma parcela importantíssima das trocas comerciais do planeta), e não só de produtos tangíveis, como grãos de soja ou carros, o que é claramente o caso ´de empresas de engenharia especializadas em grandes obras, que fornecem mão de obra, expertise e muitas vezes até materiais, repatriando boa parte dos lucros para seu país de origem.
Ygor Coelho
[1] BNDES Aberto - O BNDES e as exportações de serviços
Caixa-preta?
Nem Cuba, nem Venezuela: país que mais recebeu recursos do BNDES foram os EUA
Roger Pereira, especial para a Gazeta do Povo
Os financiamentos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para obras de infraestrutura em países da América Latina e África, principalmente nos casos de países sob regimes ditatoriais, são o principal alvo dos questionamentos ao banco na famosa “caixa-preta” que o governo Bolsonaro exige que seja aberta. Mas, afinal, onde e por que o BNDES empresta recursos para operações no exterior?
O BNDES emprestou, entre 1998 e março deste ano (data de seu último balanço), US$ 10,499 bilhões para empresas brasileiras realizarem obras no exterior, na modalidade “exportação de serviços de engenharia” em 15 países da América Latina e da África. Desse total, US$ 6,862 bilhões já foram pagos pelos entes devedores, US$ 3,119 bilhões ainda estão dentro do prazo de pagamento e US$ 518 milhões estão atrasados, representando parcelas não pagas por Venezuela e Moçambique.
GRÁFICO: Os países que receberam dinheiro do BNDES
EM DETALHES: Veja todos os contratos do BNDES para financiamento de obras no exterior
O financiamento é justificado pelo banco como uma forma de fomentar empresas brasileiras e gerar a entrada de mais recursos no país, uma vez que o BNDES desembolsa os recursos exclusivamente no Brasil, em reais, para a empresa brasileira, à medida que as exportações vão sendo realizadas e comprovadas. Quem paga o financiamento ao BNDES, com juros, em dólar ou euro, é o governo ou a empresa que importa os bens e serviços do Brasil, num negócio considerável rentável e estratégico para o banco.
Maior parte do crédito do BNDES é para exportação de produtos
Mas o financiamento à exportação de serviços de engenharia é apenas uma fração de pouco mais de 25% do total de aportes do BNDES no exterior. A maior parte desses empréstimos vai para a exportação de bens de alto valor agregado – como aeronaves, ônibus e caminhões – de empresas brasileiras de grande porte.
No total, entre serviços de engenharia e bens, o banco financiou US$ 38 bilhões a 40 diferentes países nessas duas décadas. Desse montante, US$ 17,7 bilhões – ou 44% – foram destinados aos Estados Unidos.
Argentina (US$ 3,5 bilhões), Angola (US$ 3,4 bilhões), Venezuela (US$ 2,2 bi) e Holanda (US$ 1,5 bi), são os outros países que lideram a lista de principais destinos de financiamentos do banco no exterior.
Entre as empresas brasileiras com exportações para os Estados Unidos financiadas pelo BNDES estão Embraer (aeronaves), Tramontina (utensílios de cozinha), Karsten (produtos têxteis) e Schulz (compressores), entre outras.
Os países que receberam dinheiro do BNDES para obras
Dentre os importadores de serviços de engenharia brasileiros financiados pelo BNDES, Angola é o maior devedor do banco. Em mais de 80 projetos, de aeroportos a estrutura de saneamento básico, contando, na sua maioria, com obras rodoviárias, o país emprestou US$ 3,2 bilhões do banco brasileiro. O saldo devedor é de US$ 708 milhões, de acordo com o último balanço do BNDES, de 31 de março.
Com três grandes projetos de infraestrutura tocados por empreiteiras brasileiras, a Argentina emprestou US$ 2 bilhões do BNDES. Pagando rigorosamente em dia, o país vizinho tinha dívida de US$ 249 milhões em 31 de março.
A concentração dos financiamentos em países da América Latina e da África é explicada pelo fato de serem países em desenvolvimento, com bastante demanda de obras estruturais, e sem muitas empresas capazes de conduzi-las, o que abre oportunidades para as companhias brasileiras.
Calotes: os países que têm dívidas em atraso com o BNDES
Venezuela, Moçambique e Cuba não estão em dia com seus empréstimos junto ao BNDES. Ao todo, o banco já acumula US$ 518 milhões em parcelas atrasadas. O país do ditador Nicolas Maduro pagou pouco menos da metade do US$ 1,5 bilhão que emprestou, sendo que US$ 352 milhões são parcelas atrasadas.
Os africanos têm US$ 188 milhões emprestados do BNDES, e conta como "em aberto" o pagamento de US$ 118 milhões. Cuba pagou US$ 102 milhões dos US$ 656 que teve financiados, e US$ 48 milhões estão atrasados.
Apesar dos recentes atrasos, o BNDES argumenta que o Fundo Garantidor de Exportações, criado justamente para dar cobertura às garantias prestadas pela União nas operações, está superavitário em mais de US$ 700 milhões, tendo arrecadado US$ 1,313 bilhão em prêmios e pagando US$ 547 milhões em indenizações.
EM DETALHES: Veja todos os contratos do BNDES para financiamento de obras no exterior
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